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2012-04-13

Deize Carvalho e sua família sofrem perseguiçã​​o policial devido à sua luta por justiça

Deize Carvalho, moradora da comunidade do Cantagalo, na Zona Sul do Rio, tem se destacado na luta por justiça desde que seu filho, Andreu Luís Silva de Carvalho, foi brutalmente torturado e assassinado nas dependências do Degase (Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas), em 1º de Janeiro de 2008. Sua luta incansável, apoiada por movimentos sociais e organizações defensoras dos direitos humanos, foi parcialmente recompensada com o indiciamento e denúncia dos agentes responsáveis pela morte de Andreu. Deise, além de buscar justiça no caso de seu filho, colabora nas denúncias de abusos e arbitrariedades cometidas por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora em sua comunidade. Esteve na frente da denúncia e do apoio à família do jovem André, executado sumariamente por policiais no dia 12/06/2011 na comunidade do Pavão-Pavãozinho, vizinha ao Cantagalo.

Deize Carvalho recebe Medalha Chico Mendes

Deize Carvalho recebe Medalha Chico Mendes

Esta atuação de Deize, inclusive, é um dos motivos pelos quais ela foi escolhida para receber este ano a Medalha Chico Mendes de Resistência - prêmio criado em 1988 pelo grupo Tortura Nunca Mais para homenagear pessoas e/ ou grupos que lutam pelos Direitos Humanos e por uma sociedade mais justa. Mas, se um lado da sociedade reconhece seu valor e sua contribuição, o Estado injusto e opressivo vê na sua luta algo que deve ser detido e calado de qualquer forma.

Deize e sua família sempre foram tratados com agressividade pelos policiais, mas há cerca de duas semanas os ataques se agravaram. No dia 16 de março, o filho de Deize, um estudante de 15 anos, foi agredido e ameaçado por um dos policiais da UPP local (Termo Circunstanciado nº 014-02440/2012). No dia seguinte (17/03), Lorraine Carvalho, filha de Deise, de 19 anos, também foi abordada por um dos policiais da UPP para passar por uma revista. A jovem, então, solicitou que a revista fosse realizada por uma policial mulher (conforme determina a lei), e a partir daí tiveram início as agressões do policial. O mesmo episódio se repetiu na noite de 28/03: Lorraine chegava do trabalho (o turno diário de Lorraine no trabalho vai das 15h às 23h, portanto ela sempre chega tarde em casa) e foi abordada por um dos policiais da UPP, sob o mesmo argumento da necessidade de revistá-la - sendo que desta vez utilizou como justificativa para a revista uma denúncia anônima a respeito de uma mulher que estaria chegando na favela com drogas.

Mais uma vez Lorraine disse que só aceitaria ser revistada por uma policial mulher e o policial a empurrou, dando início às agressões. Uma tia de Lorraine que passava no local, viu o que estava acontecendo e ligou pra Deise, mãe de Lorraine, que se dirigiu à sede da UPP para saber o que estava acontecendo. O episódio se encerrou às 3h da madrugada na 13a DP, após Lorraine ter sido autuada por desobediência (artigo 330 do código penal) e desacato à autoridade (artigo 331 do códico penal) - registro de ocorrência 013-01767/2012. Deize, que mora há 41 anos no Cantagalo, afirma jamais ter passado por situações semelhantes a essas que estão ocorrendo após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora na região.

Se fossem apenas mais três casos de abusos e violências a que a população das favelas do Brasil sofre quotidianamente, já seria um fato muito grave, mas acreditamos que trata-se, além disso, de uma represália à atuação corajosa de Deize em defesa dos direitos humanos e da justiça. Portanto, nós abaixo-assinados nos manifestamos veementemente contra as ofensas, agressões e ameaças que Deize e seus filhos vêm sofrendo, exigimos que as autoridades governamentais estaduais tomem as medidas necessárias para que elas cessem e para que os abusos cometidos sejam investigados e julgados, e para que o indiciamento criminal da filha de Deize seja anulado.

Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos - Cebraspo

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