Atividades  


2013-05-16

Desaparecido durante a ditadura militar será homenageado com placa próximo ao morro do Borel, com presença de familiares da chacina de 2003

Joel Vasconcelos, militante preso em 1971 próximo ao Morro do Borel e desaparecido pela ditadura civil-militar, será homenageado hoje (8:30) com a colocação de uma placa próximo ao local onde seu deu a prisão, e com a presença de Dalva, mãe de Thiago, um dos jovens assassinados em abril de 2003 pela PM na Chacina do Borel, cujos 10 anos foram relembrados recentemente por uma série de atividades organizadas na favela pela Rede contra a Violência, familiares das vítimas, Núcleo Piratininga de Comunicação e outras organizações.

Consideramos ser muito importante essa ligação entre os crimes do Estado do passado e do presente, em particular a aproximação entre familiares das vítimas da ditadura de ontem e da “democracia” de hoje. Será através dessa resistência comum que poderemos extirpar de uma vez o aparato repressivo fascista que permanece agindo em nosso país.

JUSTIÇA! REPARAÇÃO! NÃO ESQUECEMOS NOSSOS MORTOS E DESAPARECIDOS!

Segue apresentação do NexA, grupo que organiza a homenagem, e histórico do caso de Joel:

O NexA (núcleo de experimentações anárquicas), é um grupo que veem realizando uma série de encontros teóricos e práticos de caráter libertário, tendo como referência o pensamento de Roberto Freire e em parceria com o IES – Instituto de Estudos de Soma. Desde o ano passado estamos realizando a intervenção Lembrar é Re-Existir.

Esta intervenção consiste na colocação de placas nos locais onde mortos e desaparecidos políticos do período da ditadura civil/militar brasileira, foram presos, assassinados, ou onde foram vistos pela última vez.
A ideia é que através da valorização da história daquelas pessoas que sofreram e combateram a tortura e a ditadura, possamos revindicar um nunca mais!

Objetivo desta intervenção é trazer a história e a memória destas pessoas e da história política da resistência de nossa cidade para a RUA, afetando à tod@s. As placas são uma forma de intervir na sinalização da cidade, sendo capazes de ressignificar os lugares, intervindo na relação das pessoas com esses espaços, fazendo assim uma cartografia da memória.

Há também uma dimensão de reparação, em especial para as famílias dos desaparecidos políticos, que ficaram sem qualquer resposta quanto às circunstâncias da morte de seus entes queridos, carentes muitas vezes de um lugar onde possam prestar uma homenagem, onde a memória daquelas possa ser lembrada com reverência.

Por fim, o significado desta intervenção em meio aos trabalhos das Comissões Nacionais e Estaduais da Verdade, está também na participação e intervenção da sociedade neste processo, mesmo quando esta não é convidada.

Temos financiado este projeto através da venda de camisetas que também ajudam a divulgar esta iniciativa.

Para nós, a colocação desta placa em homenagem a Joel, ainda mais com a confirmação da presença dos familiares, se tornou uma grande oportunidade para relacionar as violações cometidas pela ditadura civil-militar e os abusos cometidos pela polícia na suposta “democracia”. Foi por isso que resolvemos convidar a Maria Dalva para estar presente, pois as histórias de ambas as gerações possuem um vínculo muito forte, o que faz com que esta homenagem tenha um significado ainda mais importante sob o presente.

Segue alguns links do nosso grupo, das placas colocadas, etc.

blog do nexa

perfil do NexA no facebook

Foto das camisas

Placa do Rubens Paiva

Placa DOI CODI

Placa da Chacina de Quintino, na Av Suburbana

Vídeo da participação do NexA no Seminário Latino Americano Sobre Lugares de Memória, realizado no Arquivo Nacional.

Sobre Joel Vasconcelos:

JOEL VASCONCELOS SANTOS (1949-1971)

Filiação: Elza Joana dos Santos e João Vicente Vasconcelos Santos

Data e local de nascimento: 09/08/1949, Nazaré (BA)

Organização política ou atividade: PCdoB

Local e data do desaparecimento: 15/03/1971, Rio de Janeiro

O nome de Joel também integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Baiano de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo, afro-descendente, trabalhou inicialmente como sapateiro e começou, muito jovem, a desenvolver interesse por questões políticas. Sua mãe, Elza Joana dos Santos, tornou-se, após o desaparecimento do filho, uma incansável ativista do movimento dos familiares de mortos e desaparecidos. Em 1966, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Joel estudou contabilidade na Escola Técnica de Comércio. Foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas – AMES/RJ em 1970 e diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES em 1970 e 1971. Quando de sua prisão e desaparecimento, estava vinculado à União da Juventude Patriótica, organizada pelo PCdoB.

Joel Vasconcelos e Antônio Carlos de Oliveira da Silva foram presos nas imediações do Morro do Borel, na esquina das ruas São Miguel e Marx Fleuiss, no Rio de Janeiro, em 15/03/1971, por uma ronda policial que desconfiou serem ambos traficantes de drogas. Por mais de três meses Joel e “Makandal”, como era conhecido Antônio Carlos, ficaram detidos e incomunicáveis. Aos apelos de Elza Joana, os agentes da PE e os oficiais do Ministério do Exército com os quais conseguiu falar, responderam com evasivas.

Primeiro confirmaram a prisão, mais tarde negaram e, pouco depois, informaram que ele já havia sido liberado. Mas os dois continuavam detidos. Elza Joana apelou a Dom Eugênio Salles, Dom Ivo Lorscheiter, aos jornalistas Sebastião Nery e Evaldo Diniz, ao presidente da OAB, ao senador Danton Jobim, ao deputado Chico Pinto e ao professor Cândido Mendes. Após enviar carta ao presidente da República, Garrastazu Médici, recebeu em sua casa uma visita de agentes do DOPS, que a levaram até o gabinete do general Sizeno Sarmento. O comandante do I Exército prometeu esclarecer completamente o episódio, mas nada foi informado.

Makandal conta que ele e Joel conversavam numa esquina, quando passou o carro da polícia. Joel assustou-se e comentou que havia documentos políticos nos pacotes que carregava. Os policiais armados cercaram os dois e revistaram os pacotes. Foram algemados e levados ao 6° Batalhão da PM e, em seguida, ao quartel da PM na rua Evaristo da Veiga. De lá, foram encaminhados à Polícia do Exército, onde Joel permaneceu até o seu desaparecimento, sob constantes interrogatórios durante os quatro meses em que Makandal esteve preso. O preso político Luiz Artur Toríbio, em seu depoimento na Auditoria Militar, denunciou que um dos policiais do DOI-CODI/RJ afirmou “que se não confessasse teria o mesmo fim que ‘Joel Moreno’, que foi morto por policiais do DOI do RJ”.

Em depoimento transcrito no livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, depois de descrever os espancamentos sofridos por ambos desde o momento da prisão e nas duas unidades da PM por que passaram antes de serem conduzidos ao Exército, Makandal relata: “Lá, na PE, começou tudo muito tranqüilo ao ponto de a gente imaginar que não iríamos ser torturados. Caiu a noite e começamos tudo novamente. (…) Era pau-de-arara, choque e tudo o mais. Um mês nesse sofrimento e nós já estávamos com queimaduras por todo o corpo em virtude dos choques elétricos. Levaram então o Joel para a ‘esticadeira’, com uma pedra amarrada nos testículos. Fiquei apavorado e me trancafiaram numa ‘geladeira’. Depois me pegaram para assistir às torturas de Joel e me fizeram um montão de perguntas”.

Registros oficiais comprovando a prisão de Joel somente foram localizados em 1991, após a abertura dos arquivos do DOPS/RJ, onde foi encontrado documento do Serviço de Informações do Estado Maior da PM/2, do então Estado da Guanabara, datado em 17/03/1971, que confirma a prisão de Joel em 15/03/1971, descrevendo, inclusive, o material impresso com ele apreendido e, também, seu primeiro depoimento, quando informou o endereço da própria residência. Documentos do DOI-CODI do I Exército de 15/03/1971 e de 19/03/71 também trazem declarações de Joel. O Relatório apresentado pela Marinha, em 1993, ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, informa que Joel foi “preso em 15/03/1971 e transferido para local ignorado”.

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