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2010-12-22

Tropa de Elite 2: o "inimigo" pode ser outro, mas as vítimas continuam invisíveis

Tropa de Elite 2, a sequência do filme de 2007 de José Padilha, tornou-se há poucas semanas o filme brasileiro que atingiu a maior audiência de todos os tempos (quase 11 milhões de espectadores). Entretanto, mais que um fenômeno cultural, este é um fato social e político que reflete graves processos que estão se desenvolvendo na sociedade.

A Rede contra a Violência foi convidada pelo jornal Brasil de Fato a contribuir com uma crítica ao filme, para ser publicada numa matéria mais abrangente do jornal, com várias outras contribuições. O artigo que se segue é fruto de nossa discussão coletiva feita a partir deste convite, e divulgamos com autorização dos companheiros do Brasil de Fato.

Muitas críticas e avaliações têm considerado a seqüência do Filme “Tropa de Elite” muito superior, em termos de suscitar uma reflexão questinadora, do que o primeiro filme. Afinal, em TE2, os grupos paramilitares (incorretamente chamados, no Rio, de “milícias”) e, mais geralmente, a corrupção política e policial, aparecem como um problema (um “inimigo”, na terminologia militarizada do filme) bem mais grave que o tráfico de drogas, e o movimento por direitos humanos aparece de forma bem mais favorável que em TE1 (onde “defensores de direitos humanos” eram “estudantes esquerdistas maconheiros amigos de traficantes”), embora reduzido a apenas um indivíduo.

Contudo, para nós da Rede contra a Violência, que entendemos que o foco da luta dos direitos humanos não é o combate à corrupção (por mais que isso seja importante), e sim a defesa intransigente da humanidade e dos direitos, sempre desrespeitados, da população pobre das cidades e do campo, “Tropa de Elite 2” continua com a grave lacuna também presente no primeiro filme: as principais vítimas do sistema de violência e criminalidade, as moradoras e moradores das comunidades pobres, estão literalmente ausentes do enredo, são no máximo figurantes, e na maior parte das vezes apenas cenário. Os moradores das favelas (não a minoria de traficantes, que também são em sua grande maioria pobres, mas a grande maioria sem ligações com o crime) no filme não falam, não agem com autonomia e nem mesmo morrem! É impressionante como, nos dois filmes, não há nenhuma cena de abuso policial, ofensa, agressão ou assassinato de moradores por policiais em serviço, embora esses fatos sejam parte do cotidiano trágico das comunidades.

Mais ainda, não existem personagens no filme que representem a importante resistência popular, que apesar de tudo se constrói na luta das vítimas e familiares de vítimas da violência, juventude favelada e periférica que se organiza no movimento hip hop e outras expressões político-culturais, pré vestibulares comunitários, etc. Sem esses personagens, e apresentando como os únicos pobres que têm alguma fala e protagonismo, os traficantes de drogas, TE2, do mesmo modo como o primeiro filme, contribui para reforçar o poderoso preconceito que associa favela a crime e favelado a bandido, mesmo que não tenha sido essa a intenção do diretor e dos roteiristas.

Essa lacuna não é um aspecto secundário, mas um aspecto central no desenrolar do enredo, que dessa maneira não tem como criar uma empatia do público com o sofrimento e e resistência dos seres humanos envolvidos nos processos sociais de fundo, portanto não tem como chegar a uma compreensão mais elaborada das reais motivações disso que se chama “lutar pelos direitos humanos”. O próprio Capitão Nascimento não evolui em sua crise pessoal devido ao arrependimento ou remorso por seus métodos e pensamentos brutais, mas simplesmente por decepção com a instituição policial em que confiava apesar de tudo. A reflexão de caráter social bastante avançada presente nas palavras finais do desiludido militar, aparece assim como um discurso fora do contexto, compreensível apenas para “iniciados” (militantes populares ou intelectuais progressistas), mas que para o público médio deve soar apenas como pessimismo total.

E assim, surpreendentemente, verificamos que os “heróis” de TE2 continuam a ser no fundo os mesmos do primeiro filme: os policiais brutais, fascistas, porém “honestos”, do BOPE. De todos os personagens principais, somente Nascimento e Matias são indivíduos plenamente “morais”, que não se preocupam com cargos, carreira, dinheiro ou fama, mas somente com sua “missão”. A idéia fascista da “limpeza” da sociedade por militares violentos porém incorruptíveis não sofreu na verdade nenhuma crítica nos dois filmes. E contribuiu para isso outra lacuna grave do enredo. Como se sabe, TE1 (e em menor parte TE2) foi inspirado numa obra literária de valor informativo, o livro “A Elite da Tropa”, que busca contar a história do BOPE e tem como uma das principais revelações a existência de uma trama no interior do batalhão (na época chamado NuCOE, depois COE, depois CIOE) para assassinar o governador Brizola, por ser um esquerdista que impedia a aplicação dos métodos brutais no combate à criminalidade nas favelas.

O NuCOE surgiu em 1978, ainda sob ditadura militar, fruto de projeto elaborado pelo tristemente célebre Paulo César Amêndola de Souza, oficial da PM comprovadamente envolvido em órgãos onde se praticaram torturas nos anos 70. Depois de ser o idealizador do BOPE, foi o criador e comandante da Guarda Municipal do Rio (1993) e depois da unidade “anti-terrorismo” da Secretaria de Segurança criada por Josias Quintal em 2001. Será que “Tropa de Elite 3” vai finalmente abordar esse lado esquecido do BOPE, e as sinistras relações entre repressão política e social e o suposto “combate à criminalidade”?

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