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2010-10-02
Source: Roberto Maggessi

O Tendão de Aquiles do Monstro Social

Artigo publicado no blog Retalhos de Cidadania

Quando o Prefeito Eduardo Paes discursou em Madureira, ano passado, na presença de mais de mil pessoas, onde afirmou, categoricamente: “Nenhum de vocês vai sair de Madureira. No máximo vão para o outro lado da rua!”, todos sabiamos que ele mentia.

Ao fim da festa a perseguição iniciou-se, com requintes de crueldade, terrorismo, marretas e, em alguns casos, um cubículo lá em Realengo. Para as cucúias a Lei Orgânica, o Estatuto das Cidades e a Constituição. Um monstro com a mãos do Lacerda, o cinismo e a covardia de Sandra Cavalcante, a leviandade de Marcos Tamoio e o oportunismo cruel de Pereira Passos, dirige seus tratores contra o gueto e suas casas marcadas (numa prática nazista) e deixa como recado aos que insistem em lutar, um monte de entulhos, restos de pertences e ferros retorcidos, num monumento disforme à política de limpeza social reeditada pelo atual alcaide.

Se fosse este jornalista um artista plástico, construiria uma escultura de um enorme trator, o monstro social, com os entulhos da Estradinha, dos Prazeres, do Parque Royal, da Vila das Torres…

De bom, esta prática perversa só está provocando uma reação organizada dos movimentos comunitários e dos homens (e mulheres) de boa vontade social. O crescimento do Conselho Popular, a revalorização da Pastoral das Favelas, o fortalecimento da Defensoria Pública do Núcleo de Terras, a atuação decisiva do Ministério Público dos Direitos Humanos, o brilhante “Corpo Técnico comunitário” que desmorona as mentiras técnicas da Prefeitura e principalmente, o surgimento de novas lideranças comunitárias, inteligentes, dinâmicas e corajosas, não cooptadas e não comprometidas com a política suja e velhaca.

Pela frente, teremos uma cidade como um enorme canteiro de obras que deve se transformar num feroz campo de batalha, porque as Comunidades do Alto da Boa Vista não tem vocação para Morro da Catacumba, o Canal do Anil não reencarnará a Praia do Pinto e a Comunidade do Horto não será varrida para dar lugar as mansões, como a favela Macedo Sobrinho.
São outros tempos e a mídia elitizada e patrocinada pelo capital demofóbico já não manipula todo o judiciário, nem toda a Câmara de Vereadores, nem todos os presidentes de associação de moradores, nem todos os órgãos públicos.

Se insistir neste modelo de reforma urbana, baseado em mentiras, oportunismo de tragédia, demolições ilegais, sem um Plano Diretor democrático, referenciado por projetos de lei oportunistas, que loteiam a cidade entre os grandes empreendedores do capital especulativo imobiliário, a Prefeitura e seus aliados vão empacar a realização dos Mega-Eventos, vão ajudar a formar a maior e mais organizada aliança comunitária urbana do Brasil e corre o risco de provocar uma reação à altura das suas marretadas e picaretadas.

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