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2010-10-02
Source: Gas-PA

Resposta a Mário Maestri

Artigo em resposta à entrevista de Mário Maestri, O Programa Racial do Capital e do Trabalho para a Sociedade Brasileira, publicada em Julho de 2010 no Correio da Cidadania.

Lembro como, há coisa de 20 anos, foi festejada a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Diziam que era o mais avançado instrumento de defesa da infância e adolescência no mundo. E foi observando a situação das crianças e adolescentes da classe trabalhadora que eu entendi que não podia esperar nada de estatuto nenhum desse Estado burguês. Por isso, não me empolguei nem um pouco, nem com o processo e, muito menos, com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O único caminho que enxergo para a derrota do racismo é a luta do povo preto organizado contra o racismo, sim, mas, necessariamente, combinada com a luta pela derrubada da sociedade de classes.

Nem tudo são flores, mas também nem tudo são espinhos. Como o tal estatuto é bem maior do que a questão das cotas, a discussão sobre as relações raciais no Brasil está pautada com bem mais veemência. É nessas ocasiões que muito mais pessoas estão mais aptas a ouvir/ler e falar/escrever.

Uma das pessoas que se pronunciaram sobre o assunto, nos últimos dias, foi o historiador Mário Maestri, em entrevista para o Correio da Cidadania. E esse pequeno texto não é um diálogo apenas com tal entrevista, mas sim, com uma corrente de pensamento que enxerga nas lutas pontuais do povo preto, um freio na luta de classes.

Todo ano quando chega 20 de novembro, somos devidamente informados de que trabalhadores brancos ganham mais que trabalhadores pretos exercendo a merma função, e que essa diferença é ainda maior quando se compara o salário do homem branco com o da mulher preta; nossa presença é bem maior nos cargos com menor remuneração; nós pretos somos maioria entre os analfabetos e na massa carcerária; somos minoria nas universidades; segundo o sociólogo Ignácio Cano, somos 70,2% dos assassinados pela polícia… Então, é importante sublinhar que classe trabalhadora não é tudo uma coisa só.

Na entrevista Maestri faz distinção entre “luta anti-racismo” e “luta pela igualdade racial”. Sobre a primeira, ele diz ser uma luta progressista, revolucionária. A ultima, ele classifica como conservadora e “parte das estratégias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa”.
Essa é uma discussão na qual eu não quero entrar no momento. Pra mim o importante é que no seu rol de bandeiras conservadoras ele coloca as nossas lutas reparatórias. Na minha opinião essa é mais uma demonstração da enorme dificuldade que a esquerda tem de entender como táticas, as lutas específicas.

Perguntado sobre a retirada do quesito “raça” do formulário de atendimento do SUS, no maldito estatuto, Mario Maestri responde:

É enrolação estatística dizer que negros, por serem negros, são mais desfavorecidos que brancos, por serem brancos, por exemplo, no relativo à saúde. Comparemos os engenheiros negros e os pedreiros brancos. Nesse caso, a saúde dos brancos é certamente pior do que a dos negros. E se cotejamos a saúde dos médicos brancos à dos médicos negros, certamente ela será, no geral, idêntica!

Mais abaixo ele admite a desigualdade na distribuição de pretos e brancos nas profissões mais bem remuneradas. Porém, negando que isso seja uma questão racial, mas sim, tão somente uma questão social, ele não tenta explicar qual fenômeno social é esse que faz de nós maioria entre os pedreiros e minoria entre os médicos e engenheiros.

Outro equivoco é afirmar que cotistas abandonam a luta “no aqui e no agora, do ensino universal, gratuito e de qualidade”. Só abandona uma luta quem já esteve nela. E quem garante ao Maestri que esses cotistas estavam engajados em alguma luta mais ampla antes de ingressarem na universidade? Eu afirmo que não, a grande maioria, não. Não estavam antes e nem estarão depois, se essa esquerda continuar abdicando do trabalho de base e pregando contra as cotas.

A maioria dos trabalhadores pretos não tem noção do que seja capital, muito menos da sua relação com o racismo. E a relação capital-racismo também é ignorada por boa parte da esquerda (que às vezes chega a ponto de chamar nossa luta de transversai e culturalista). O que fragmenta a luta da classe trabalhadora não é a militância nas questões raciais, mas sim a ignorância dessa relação, pois se sabemos que o capitalismo se fortalece, também, do racismo, combater um, deixando o outro intacto, é esmurrar ponta de faca.

Então, o problema maior se esconde no fato de que quem entende essa relação não está nas bases fazendo a disputa das consciências com o Movimento Negro burguês. E é no minuto seguinte que aparece algum intelectual da esquerda atacando a política de cotas, que surge um militante do Movimento Negro burguês dizendo a outros pretos e pretas:
“Viu? A esquerda é racista”.

Na era do Sim, Nós Podemos de Obama, em que a ilusão da mobilidade social ganha contornos mais fortes de realidade, o discurso contra algo que pareça ser o caminho que leva ao empoderamento (o saber, seja ele popular ou acadêmico, empodera), se torna a senha que identifica o inimigo. Daí o interlocutor/a responde: “Vi sim. A esquerda é racista mermu”.

O preto ou a preta que não sabe o que é “luta de classes” sabe muito bem o que é ser discriminado pela suas características físicas, que são uma herança africana. E é assim que nasce mais um reacionário no seio da classe trabalhadora. Nós, pretos militantes comunistas, de base, sabemos a medida exata do desserviço que causa a negligencia da esquerda para com as questões raciais, e o combate de parte dessa esquerda às políticas reparatórias. Sem contar que o contato mais íntimo da galera das cotas com um movimento estudantil classista gera contradições que poderão converter as bandeiras específicas em lutas por transformações mais radicais. Negar essa possibilidade é negar a dialética.

A esquerda, por décadas abriu mão de discutir e agir, com profundidade, sobre segurança pública. E hoje, surpresa, não está sabendo o que fazer vendo a principal vítima da repressão do Estado, a favela, aplaudir a presença da polícia nessas comunidades. A ausência da esquerda nesses espaços abriu brecha pras ONGs se instalarem e, despolitizando a questão, ficarem repetindo que o problema do favelado era que “o único órgão do Estado a subir na favela é a polícia”. Mas e agora que junto com esse aparelho racista de repressão político-social e proteção da propriedade privada está subindo a creche, o esporte, a inclusão digital etc? E agora que um dos programas de TV de maior audiência nas favelas é justamente aquele que comemora cada pobre assassinado pela policia (outrora reconhecida inimiga de 11 em cada 10 favelados)?

Ou a esquerda faz, urgente, essa autocrítica e assume a responsa de discutir e atuar sobre as questões raciais – não deixando a direita se apropriar do assunto – ou estará condenada a ficar repetindo erros que nos deixarão cada vez mais em maior desvantagem na correlação de forças na luta pela superação da sociedade de classes.

A propósito: Entre 182 cotistas do curso de Serviço Social da Uerj, no mínimo uma estudante, em seu pouco tempo de atividade política conta participação em: Comissão Organizadora do Encontro Local de Estudantes de Serviço Social (ELESS); Ato/festa e ocupação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) com um apitaço que desceu do nono andar até o primeiro fazendo o maior barulho e gritando palavras de ordem no megafone para cobrar deles que deixassem de pelegagem e que abraçassem a causa dos estudantes e não do reitor e exigir a ocupação todos espaços da universidade por todos e não só pelos cursos de “elite” ligados ao reitor; mobilização entre alunos, docente e administrativo para discutir e criar meios de barrar a minuta do HUPE (que dá brexa para a privatização do hospital universitário) do reitor; Jornada de lutas da Via Campesina, que derrubou pés de cana no norte fluminense, para denunciar o trabalho escravo naqueles canaviais; construção e coordenação de atividades de formação política; atividades de agitação e propaganda etc.

Nesse caso, ela que é moradora da Baixada Fluminense, antes de entrar pra faculdade, passou por um trabalho político que o Coletivo de Hip Hop LUTARMADA realiza em algumas favelas e bairros da periferia do Rio de Janeiro, e por um pré-vsestibular comunitário. Talvez ela não fosse exceção se a esquerda fosse mais atuante pra além dos muros dos campus universitários, escritórios, gabinetes e avenidas do centro da cidade.

Cada vez mais vermelho, sem deixar de ser preto
Gas-PA

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